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Campina Grande - PB

Confira a coluna de Padre Assis: As lepras de nosso tempo

09/10/2016 às 8:26

Fonte: Da Redação

08/10/2016

Paraibaonline

*Padre José de Assis

A Liturgia da Palavra deste Domingo mostra-nos com exemplos bem concretos: A cura do sírio Naamã (cf. 2Rs 5,14-17) e dos dez leprosos (cf. Lc 17,11-19), como Deus tem um projeto de salvação para oferecer a toda humanidade, sem exceção.

Deus não faz discriminações. Ajuda a todos, independentemente de sua raça, nação, ou religião. Só pede fé e confiança incondicional.

Tal como aconteceu com o sírio Naamã, nos tempos do profeta Eliseu, assim acontece com o samaritano do Evangelho, eles não pertencem ao povo de Israel, mas a bondade de Deus os envolve, os cura e os salva.

Naamã é um general do exército da Síria do séc. IX a. C., a, consequentemente um estrangeiro que sofre de uma doença de pele; sua escrava hebreia lhe fala do profeta curador Eliseu e de seus prodígios; ele se dirige ao profeta com grande pompa.

Mas, quando chega na Samaria aprendeu o significado da humildade quando teve que obedecer, embora a contra gosto, ao criado do profeta e banhar-se sete vezes no rio Jordão; mas, quando obedeceu sua pele volta a ser como a de um jovem: está curado! Naamã reconhece que a cura se deve a Deus.

O milagre não é sua cura, se não a dupla confissão de fé de Naamã. Reconhece a graça e a força curativa do Deus de Israel. “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel!” (2Rs 5,15)

Tal como aconteceu com o sírio, assim acontece com o samaritano do evangelho. Jesus passava entre a Samaria e a Galileia e vê dez leprosos que se aproximam dele e lhe pedem:

“Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (Lc 17,13) Compadece-se deles e manda-os apresentar-se aos sacerdotes cuja função, entre outras era em princípio, diagnosticar estas enfermidades.

Esses homens ensinam-nos a pedir: recorrem à misericórdia divina, que é a fonte de todas as graças. Apesar de ainda não estarem curados eles obedeceram a Jesus e foram apresentar-se aos sacerdotes e, pela sua fé, foram curados.

A desgraça comum une os desgraçados. Estes leprosos haviam superado a tradicional animosidade entre judeus e samaritanos: formam um só grupo, “os dez leprosos”.

A fama de Jesus havia chegado até os proscritos da sociedade, até os leprosos. Jesus manda aos leprosos que se ponham a caminho. Antes de curá-los, os submete à prova e lhes exige um ato de fé.

Curiosamente, os dez “leprosos” não são curados imediatamente por Jesus, mas a “lepra” desaparece “no caminho”, quando iam mostrar-se aos sacerdotes.

Isto sugere que a ação libertadora de Jesus não é uma ação mágica, caída repentinamente do céu, mas um processo progressivo, o “caminho”, a caminhada, no qual o cristão vai descobrindo e interiorizando os valores de Jesus, até à adesão plena às suas propostas.

Assim, a nossa “cura” ou a nossa “conversão” não é um momento mágico que acontece quando somos batizados, ou fazemos a primeira comunhão ou nos crismamos; mas é uma caminhada progressiva, durante a qual descobrimos Cristo, aderimos a Ele e nascemos para a vida nova.

Mas, o relato evangélico não termina com o milagre, pois conta que só um dos dez leprosos curados e, um samaritano, voltou “glorificando a Deus em alta voz, lançou-se aos pés de Jesus com o rosto por terra, agradecendo-lhe.”(Lc 17,15-16)

Na desgraça estes homens, unidos, compartilham com o general estrangeiro Naamã a mesma vergonha do mal da lepra e juntos procuraram Jesus; libertados, esquecem-se dele e se preocupam mais em cumprir o que estava mandado pela lei: apresentar-se ao sacerdote para reintegrar-se à comunidade religiosa de Israel (Cf. Lv 13,45; 14,1-32).

Jesus deve ter-se alegrado com a prova de gratidão desse samaritano, mas ao mesmo tempo encheu-se de tristeza ao verificar a ausência e a ingratidão dos outros. Jesus esperava o regresso de todos e manifestou a sua surpresa, perguntando:

“Os dez não ficaram purificados? Onde estão os outros nove? Não houve, acaso, quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?” (Lc 17,17-18)

A gratidão é uma coisa que todos levamos tão dentro de nós mesmos, tão inato, tão humano, que não há nada que nos magoe tanto quanto os que não nos agradecem quando lhes fazemos algum favor. E essa atitude do ingrato que passa por longe do seu benfeitor também magoou Jesus.

A ingratidão é prima-irmã do egoísmo. Ambos, o ingrato e o egoísta não pensam mais do que em si mesmos, não necessitam de nada, portanto, o que devem agradecer?

Temos perdido o sentido da gratidão, do agradecimento. Em nível de nossa prática religiosa é mais frequente pedir que dar graças.

Quando estamos em apuros costumamos rezar, mas quanto trabalho nos custa agradecer a ajuda que recebemos! Sem dúvida, tudo recebemos de graça: a fé, a saúde, a vida, os pais, o amor… Que nos curemos da lepra da ingratidão e elevemos nosso coração agradecido a Deus pelo dom da fé.

O leproso no tempo de Jesus era tratado como um morto em vida e era obrigado a vestir como se vestia os mortos: roupas rasgadas, cabelos soltos, barba rapada. Não se lhes permitia morar dentro de cidades, mas sim fora, nas periferias com o objetivo de não misturar-se com seus habitantes.

Tudo o que eles tocavam se considerava impuro, por isso tinham a obrigação de anunciar sua presença de longe. Eram “impuros” ritualmente e viviam uma espécie de vida de excomungados.

Existem em nosso mundo, e talvez em nossa Igreja, outras lepras e outros leprosos com os quais ninguém quer juntar-se. São os que o Papa Francisco chama “os descartados”. São as pessoas rejeitadas no mundo e expulsas da comunidade.

Sem duvida, a cura dos leprosos se apresenta nos evangelhos como sinal messiânico e cumprimento das promessas que já anunciava os profetas. A Igreja deveria ser o “hospital de campanha” que pede o Papa Francisco para atender àqueles que ninguém quer aproximar-se.

A “lepra” que rouba a vida a esses “dez” homens que o Evangelho nos apresenta representa a desgraça que atinge a totalidade da humanidade e que gera exclusão, marginalidade, opressão, injustiça.

É a condição de uma humanidade marcada pelo sofrimento, pela miséria, pelo afastamento de Deus e dos irmãos, que aqui nos é pintada.

Lucas garante, no entanto, que Deus tem um projeto de salvação para a humanidade, para todos sem exceção; e que é em Jesus e através de Jesus que esse projeto atinge todos os que se sentem “leprosos” e os faz encontrar a vida plena, a reintegração total na família de Deus e na comunidade humana.

Como lidamos com aqueles que a sociedade de hoje considera “leprosos” e que, muitas vezes, se encontram numa situação de exclusão e de marginalidade (os moradores da rua, os drogados, os deficientes, os doentes mentais ou terminais, os idosos abandonados, os analfabetos, os que vivem abaixo da linha da pobreza, os que não têm celular nem internet, os que não se vestem de acordo com a moda, os que não são “politicamente corretos”, os que não consomem produtos “light”, nem frequentam as “academias” e por isso não têm uma silhueta moderna, os que não frequentam as festas sociais nem aparecem nos programas de sucesso na TV…: com desprezo, com indiferença, com medo de ficar contaminados ou como testemunhas da bondade, da misericórdia e do amor de Deus?

 

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