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Campina Grande - PB

Meu cunhado único

11/10/2016 às 7:48

Fonte: Da Redação

ailton_elisiario

Por Ailton Elisiário (*)

Eu gosto muito quando eu sonho com as pessoas que já não se encontram entre nós, principalmente com aquelas que mantiveram comigo boas relações de amizade. Sonhar com meu pai e com minha mãe, por exemplo, faz reviver as suas presenças e todo o dia para mim se transforma em radiante luz. Neste dia 6 de outubro sonhei com  o meu cunhado, Abelardo Barbosa de Medeiros. Foi um sonho tão rápido como rápidas eram nossas conversas. Simplesmente Abelardo me pedia para que eu mandasse rezar missa para ele.

 Era o dia 10 de julho do corrente ano e eu me encontrava em São João do Rio do Peixe, no alto sertão da Paraíba. O sol nem havia nascido quando meu sobrinho Eduardo me comunicava o falecimento de seu pai Abelardo. Foi um evento que, não obstante a esperança, de certa maneira era esperado, ante a complicada situação que ele enfrentava interno numa casa hospitalar. Voltei imediatamente a Campina Grande para estar com minha irmã e demais familiares e participar dos últimos atos de reverência a ele dirigidos.

Durante aquele curto dia pude rememorar e avaliar nossa relação familiar, desde quando por algum pouco tempo habitei sua casa, auxiliando-o e à minha irmã em suas atividades comerciais na sortida mercearia no bairro da Liberdade em Campina Grande. Mas não só isso, também a forma respeitosa com que ele se relacionava comigo. Não tinha intimidades, não trocava coonfidências, não demonstrava seus problemas. Mas ouvia opiniões, guardava conselhos e muitas vezes aceitava soluções.

 Ele, apesar de comerciante, tinha uma paixão pela vida rural, trazida certamente de sua infância feliz lá em Casinhas, à época distrito de Surubim. Cuidar de gado era o que fazia com muita eficiência, jamais se desapegando desse labor, tanto que mantinha um curral em pleno ambiente urbano, produzindo e distribuindo leite para uma clientela cativa. Se, como disse Euclides da Cunha, que o sertanejo era antes de tudo um forte, Abelardo era antes de tudo um vaqueiro, um vaqueiro que tinha em seu sangue a força da terra árida nordestina castigada pelo sol, mas vicejante aos primeiros pingos das primeiras chuvas. Muitas vezes ainda criança eu o via participar das vaquejadas lá em Surubim, esporte próprio do vaqueiro nordestino e hoje ameaçado de ser extinto. Esta é a imagem que tenho de Abelardo e que ficará sempre em minha lembrança.

 Encontro-me hoje em Surubim, a minha terra natal e de Abelardo. Vim recordar o passado, os bons momentos de minha infância, em companhia de Socorro e de minha irmã Teté, a esposa viuva de Abelardo. Estivemos visitando a Igreja de São José, o padroeiro da cidade. E lá, compenetrado, atendi ao seu pedido. Se quando em vida eu tinha consideração a Abelardo, esta consideração transcendeu à sua morte para fixar-se na memória que tenho dele. Não importa a razão do seu pedido, o que importa é que ele se lembrou de mim. Descanse em paz, Abelardo.

(*) Professor, membro da ALCG

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