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Campina Grande - PB

Coluna de Josemir Camilo: Dicionário pode ser racista?

21/11/2016

Foto: Paraibaonline

Por Josemir Camilo (*)

Convidado para apresentar meu capítulo no livro “Ubuntu: Educação, Alteridade e Relações Étnico-raciais”, em seu pré-lançamento, pelo Movimento Negro de Campina Grande, e por ocasião do dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, tentei esboçar uma compreensão mais rápida de um texto meio que cifrado.

A palavra, o termo, Negro aparece nos dicionários como lexema (palavra base da qual outras vão se derivar) e do qual se vai dar o significado. No entanto, verifiquei que este termo étnico tem passado de substantivo a adjetivo e paráfrase (interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto, que visa torná-lo mais inteligível ou que sugere novo enfoque para o seu sentido; interpretação, ou comentário desfavorável, maldoso, segundo o Dicionário Houaiss).

O termo Negro quase que não aparece no colonialismo (1500-1822), basta ver que temos Irmandades de Pretos e não de Negros (e de Pardos e de Brancos). Nesse período, mais das vezes, os documentos escritos pelos brancos referem-se ao trabalhador(a) africano (a) sequestrado e mantido em sistema de prisão, pelo nome de suas etnias, ou portos de embarque dos sequestrados: ardres, minas, calabar, congos, angola, benguelas, rebolo, Moçambique e outros mais. Era também designado pela igreja católica, num misto de aparente piedade e permissão de sua escravização, que o chamam de ‘etíope’, onde um preclaro sacerdote defendia um limite mínimo de chicotadas ao trabalhador preso pelos europeus, para o trabalho. Trata-se do livro do Padre Manoel Ribeiro Rocha “Ethiope Resgatado….”, de 1758.

Como surgiu o termo (lexema) Negro? A origem vem da invasão (descobrimento?) dos romanos ao território africano do norte, e devido aos rio Níger, batizaram os homens que ali viviam de homo nigri (?), homem do Níger e, por semelhança, os demais habitantes ao sul, que tinham a mesma coloração de pele e cabelo, fisionomia, no geral. Mas este não seria o único nome a designar os habitantes de pele escura da África abaixo do Saara. Há o termo Kaffir, donde, cafres e cafra e, provavelmente ‘cabra’ em português pejorativo. Quando o Brasil ficou independente, os portugueses faziam uma gozação ao hino da Independência que, em vez de “Brava gente, brasileira/ Longe vá, temor servil…”, eles, os tugas (como ficaram conhecidos em Angola, os portugueses) parodiavam: “Cabra gente, brasileira/ Do gentio da Guiné/ Que trocaram as cinco torres/ pelo fumo e o café!”. Há outra versão, trocando os dois últimos versos.

Pesquisando o termo Negro, em dicionários, verifiquei qualidades (adjetivos estranhos) que o autor atribuía ao homem/mulher africano/a e seus descendentes, como triste, feio, lúgubre, sujo. Ora, Negro é um substantivo étnico, gentílico. Tudo que os dicionaristas acrescentaram como significado é pura discriminação dos tempos da tortura e da prisão (chamado vulgarmente de escravidão) com que os brancos faziam os sequestrados da África, trabalharem praticamente de graça, já que, como explica Marx, esse novo tipo de escravidão gerava mais-valia, na economia açucareira, mineira e cafeeira. E isto por exatos (ou perto de) 350 anos destes regime violento de produção.

Uma prova que autores lusitanos e brasileiros, portanto, brancos, reproduziam a cultura do sistema de escravizar trabalhadores até a morte (bem como seu sexo, para reprodução de mão de obra), nos vem do dicionário publicado em 1789, de Antonio (sic) Moraes da Silva, que separa, já, o substantivo Negro, do adjetivo. Do primeiro, diz: “Cor negra (…) vestido de negro (…) Homem preto (…). Do adjetivo, escreve: “Cor preta como a tinta de escrever, o carvão apagado (…) Infausto, triste, desgraçado” (SILVA, 1789). Negro não é cor, é etnia. Coerente, em seu conservadorismo de elite, já acrescenta valores que não têm nada a ver com a etnia.

Vejamos um exemplo deslocado pelo racismo inconsciente. Um dos melhores dicionários da língua portuguesa, no Brasil, o de Aurélio Buarque de Holanda, no verbete, Negro, diz: “(do lat. Nigru): De cor preta. Diz-se dessa cor, preto”. Logo adiante, dá o primeiro exemplo, já confundindo os termos: “terno de cor negra. Diz-se do indivíduo de raça negra; preto”. Se parasse nesta confusão – a do terno – seria talvez desculpável. Mas, em seguida, passa a dar sinônimos: “Sujo, encardido”. O dicionarista se apropria de uma suposta memória coletiva – suposta porque tais conceitos não partiram do povo negro e, sim, de pessoas não-negras – portanto uma falsa memória, da classe dominante, a que outros setores se juntam por cooptação discursivo-ideológica. O autor vai mais longe, em sua alienação.

Cita outro exemplo confuso: “A criança está com as mãos negras”. Mais outra: “As nuvens negras anunciavam tempestade”. E, em seguida, mais este: “Muito triste, lúgubre”. Para isto, o dicionarista cita Drummond (falsa petição de princípio) sobre Casimiro de Abreu: “pensar que sua morte poderia ocorrer em Lisboa… o fazia mergulhar na mais negra infelicidade”. Outros sinônimos dados pelo ‘Aurélio’: “Melancólico, funesto, lutuoso”. E exemplifica:Negro destino o esperava”, “Maldito, sinistro; “negra hora”, “negro crime abalou a cidade”. Et caterva.

Com toda essa carga, criou-se, na língua portuguesa falada no Brasil, uma gama de enunciados baseados em interditos, tendo por pressuposto o termo negro, como algo negativo: buraco negro (buraco escuro), câmbio negro (câmbio clandestino), humor negro (humor inglês? Sarcasmo? Se bem adequado o termo ao comportamento do negro, no Brasil, seria uma agência, uma resistência?); lista negra (lista de negros sequestrados nos navios tumbeiros); magia negra (confundindo intencionalmente, necromancia [adivinhação através dos mortos] com nigromancia [através de rituais dos negros]); ouro negro (petróleo; então, positivo?), ovelha negra (ovelha de lã escura, não branca, o que era ruim para os tecedores de roupas para o frio europeu, que eram de lã branca). Continuando: papa negro (positivo? O ministro geral dos Jesuítas), poder negro (black power) e outros. A aparente positividade em algumas expressões, criadas por negros e não-negros, cria um falso sentido de neutralidade e, portanto, de autoridade da manutenção da cultura racista. O significante a ser respeitado tem que ser aquele produzido pelo grupo étnico de origem. “Meu nego!” tem um significante próprio de quem o enuncia, se um branco/a (em que contexto); se um negro/a.

Para não ir longe, o que advoguei no artigo? Que o termo negro/a seja tão só substantivo comum e étnico, e não essa ruma de adjetivos que os brancos escravagistas criaram para barrar a ação e a identidade dos afrodescendentes. Que seja adjetivo tão só quando se referir ao lado étnico: Consciência Negra, Movimento Negro, beleza negra etc.

(*) Professor, historiador

FONTE: Da Redação

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