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Campina Grande - PB

Coluna de José Mário da Silva: Doutora Adriana Melo – uma profissional exemplar

18/10/2016

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Por José Mário da Silva (*)

Há alguns anos, o atilado leitor de poesia e consagrado crítico de cinema, o professor paraibano João Batista de Brito começava um dos seus textos com a seguinte indagação: “com que ainda são capazes de sonhar os professores universitários?” E prosseguia o aludido professor mostrando que havia aqueles que, despidos de utopias, transformavam o seu cotidiano numa espécie de renitente e inútil muro de lamentações. E, em direção diametralmente oposta, postavam-se outros tantos para quem resistir é preciso, viver não é preciso.

Nessa seara existencial dos que se recusam a apenas contemplar o espetáculo da vida, sem se envolver minimamente com ele, enquadro a Doutora Adriana Melo, ilustre profissional da medicina campinense, orgulho de todos nós, com cuja sobrante competência técnica Campina Grande, mais uma vez, transcendeu as suas fronteiras mais demarcadas e se fez conhecida noutras geografias.

Primeira médica a sinalizar as vinculações existentes entre o zika vírus e a microcefalia, má formação genética no cérebro de crianças cujas mães foram atingidas pelo malévolo mosquito, realidade mais tarde devidamente confirmada noutros centros, Doutora Adriana Melo, de pronto, revelou-se uma pesquisadora séria, que, de modo silencioso, mas eficaz, fez do alto saber do qual é portadora um instrumento voltado para a promoção do bem comum. Bem comum que, no caso em tela, atende pela empática acolhida a mulheres que, de uma hora para outra, viram a graça da maternidade ser ensombreada por uma enfermidade cujos vestígios marcarão, para sempre, os seres humanos por ela afetados.

Doutora Adriana Melo, é o que se depreende das suas entrevistas e intervenções na cena pública de Campina Grande, é praticante de uma ciência com consciência e compaixão, algo bem raro em nossos dias, nos quais as relações interpessoais desumanizam-se sobremaneira.

Se “a maior dificuldade do ser humano é ser humano”, como afirma Clarice Lispector numa das suas luminosas narrativas, o ser e o fazer da Doutora Adriana Melo anelam vincar a ciência médica a uma dimensão epistemológica rigorosa e indeclinavelmente humanista. Portadora de um currículo notável, que inclui dois doutoramentos e um estágio de pós-doutoramento, a médica Adriana Melo, contudo, não faz desses títulos meros instrumentos de envaidecimento pessoal, realidade tão comum na territorialidade acadêmica. Em vez de um saber em si, temos um saber para, ponte de comunicação com a difícil e necessária alteridade, dado que, conforme nos ensina o mestre Eduardo Portella, “somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é precipício”.

Não conheço a Doutora Adriana Melo pessoalmente, mas sou um profundo admirador do trabalho que ela, ao lado dos seus eficientes colaboradores, vem realizando em nossa cidade. Trabalho que enobrece e confere dignidade à causa que ela tem abraçado com singular paixão e tocante compaixão.

Se “esquecer é uma necessidade”, conforme preconiza o astuto narrador machadiano, lembrar, mais do que uma faculdade das potências psíquicas humanas, é um categórico imperativo ético ditado por um gesto de justo reconhecimento a quem realiza ações que, nascidas sob os auspícios do tempo, exibe sabor de eternidade.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

FONTE: Da Redação

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