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Campina Grande - PB

Coluna de José Mário da Silva: A consciência crítica

18/11/2016

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Por José Mário da Silva (*)

Assisti, há alguns dias, comovidamente, um belo documentário, que teve como principal protagonista o grande crítico literário brasileiro Wilson Martins. Nascido na cidade de São Paulo; radicado, por muitos anos na cidade de Curitiba, na qual veio a falecer exatamente no dia trinta e um de janeiro de dois mil e dez, Wilson Martins foi seguramente quem desenvolveu, nos quadros da literatura brasileira, o mais longo, apaixonado, e prolífico magistério de militância na seara da crítica literária, consubstanciado em um período de aproximadamente sessenta anos de ininterrupta atividade de leitura e avaliação de quase tudo o que se produziu no Brasil nas mais variadas áreas do conhecimento. Para o grande mestre Wilson Martins, a literatura, diria Machado de Assis, sempre se constituiu numa espécie de segunda alma, parte inseparável e plenificadora da existência.

Um exemplo clássico desse abrangente raio de interesse intelectual do incansável pesquisador que foi Wilson Martins pode ser nuclearizado pela monumental História da Inteligência Brasileira que, em onze alentados volumes, promove uma impressionante abordagem da cultura brasileira em suas vastas e quase incontornáveis manifestações. Aqui, ao conhecimento livresco sobejamente erudito de Wilson Martins, teve correspondência, de igual modo, um alentado esforço do escritor para, na medida do possível, estar presente, de corpo e de alma, em cada uma das geografias evocadas em seu soberbo livro, na verdade, uma coleção de livros, um gigantesco painel da vida cultural brasileira.

Crítico literário independente, avesso às igrejinhas dominantes na vida literária nacional; e intimorato na proferição de juízos de valor correspondentes rigorosamente às suas infrangíveis convicções de emérito estudioso da fenomenologia literária, Wilson Martins findou inevitavelmente se tornando um verdadeiro colecionador de desafetos, que não suportavam a maneira, por vezes dura como o criador de A Crítica Literária no Brasil recepcionava determinadas obras que se lhe afiguravam destituídas de elevação estética. Para tais pessoas, Wilson Martins não passava de um sujeito ranzinza, ávido em falar mal das obras alheias. Nada mais distante da realidade dos fatos.

O problema é que no meio literário, ambiente no qual as vaidades desmedidas e os egos inflados frequentemente dão as cartas e a tônica das relações interpessoais muitas vezes movidas pelo jogo de inconfessáveis interesses, predomina a nefasta cultura dos elogios recíprocos, no mais das vezes inteiramente desassistidos pelo mínimo padrão de objetividade e critério valorativo. Fiel à perene lição ministrada por Machado de Assis no insuperável ensaio, O ideal do crítico, Wilson Martins sempre evitou praticar os três mais nocivos pecados da crítica literária, apontados pelo Bruxo do Cosme Velho: a camaradagem, o ódio e a indiferença.

Assim procedendo, o admirável autor dos volumes intitulados Pontos de Vista conferiu à crítica literária o alto poder civilizacional que essa solene ciência-arte tem no interior de uma dada sociedade. Mais do que um leitor obsessivo, Wilson Martins foi, sobretudo, um homem apaixonado pelo Brasil, cujo substrato profundo e ontologia íntima ele perquiriu na produção literária dos seus numerosos artistas da palavra. Crítico que tomava partido em face das inumeráveis obras que leu e analisou, Wilson Martins encontra-se, hoje, com as exceções inerentes a todas as regras, como diria Rodrigo Gurgel, injustamente esquecido na universidade brasileira, enquanto outros continuam sendo extremamente superestimados.

Na contramão dos amnésicos de plantão, consigno, aqui, minha homenagem a quem, consorciando vasta cultura humanística, ética indeclinável e inegociável honestidade intelectual, escreveu um dos mais dignos capítulos da rica história da crítica literária brasileira.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

FONTE: Da Redação

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