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Campina Grande - PB

Coluna de FLávio Romero: Uma caixa vazia?

20/11/2016

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* Por FLávio Romero

Num certo tempo, numa certa universidade, numa certa sala de aula, ousei falar de uma caixa vazia e de bolas de sopro, multicoloridas.

Nas últimas décadas, tenho me dedicado à educação, tanto como professor quanto como gestor.

Portanto, já tive experiências múltiplas sobre simbologia de caixas vazias e de bolas de sopro.

No contexto pedagógico e administrativo, a caixa vazia ou as bolas de sopro me fizeram refletir sobre algumas facetas do cotidiano educacional.

Presos numa caixa, muitos não enxergam o mundo externo que segue o seu irremediável curso com celeridade e num tempo frenético, aparentemente sempre mais curto.

Repentinamente, mesmo preso à caixa, olhamos o velho relógio de algibeira que guardamos no bolso, como herança de um passado que nunca volta. Os ponteiros desgastados fazem a mesma marcha de todos e de tantos anos, indiferentes às nossas vontades.

Mas, mesmo preso dentro da caixa, a sensação é de que os ponteiros, fragilizados pelo tempo, paradoxalmente, estão mais acelerados.

Preso à caixa, o que fazer com a marcha incontrolável do tempo?

Outros, enxergam na caixa apenas os elementos externos.

Alguns, fora da caixa, têm especial atenção pelos rótulos.

Outros, focam o olhar nas certezas materializadas no código de barra.

Num certo tempo, numa certa universidade, numa certa sala de aula, ousei falar de uma caixa vazia e de bolas de sopro, multicoloridas.

Mas, onde quero chegar com a caixa e as dezenas de bolas de sopro, ainda vazias?

No centro da sala, apenas uma caixa, vazia.

Cada aluno que entra é convidado a enxergar o “conteúdo” da caixa vazia.

Ao convidá-los a sondar o “conteúdo” da caixa vazia, estrategicamente colocada no centro da sala de aula quadrada (ou seria retangular?), tinha em mente que eles deveriam enxergar (ou seria enxergar-se?). Não queria uma simples reação física de olhar o “conteúdo” da caixa, ainda vazia.

Penso que apesar de serem sinônimos, sob as regras da Língua Portuguesa, os verbos olhar e enxergar assumem sentidos diferentes, no contexto da caixa vazia, estrategicamente colocada no centro da sala.

Você que lê esta crônica, olha as letras que se agrupam nas frases, nos parágrafos e que, juntas, enfim, dão corpo à integra do texto.

Você pode apenas olhar, inclusive indiferentemente.

No entanto, você começa a enxergar quando lê muito além das frases agrupadas que formam esse texto, escrito compulsivamente, enquanto os alunos-professores faziam um estudo em grupo, concentrados em seus próprios desafios (coletivos?).

Atentamente, observei a reação de cada aluno-professor ao se aproximar da caixa vazia:

Olhares de Curiosidade. De receio. De impulsividade. De contentamento. Era de um prazer indescritível, observar as reações inusitadas que uma simples caixa vazia, disposta no centro da sala de aula, causava em cada aluno-professor.

Algo me chamou especial atenção: ninguém ficou indiferente ao “conteúdo” da caixa vazia.

Houve até quem enxergasse na caixa dezenas de balas e de chocolates.

Um adulto que momentaneamente deixou aflorar o universo de sua meninice?

Recordações que estão bem marcadas na pele da sua alma, revestindo, talvez, as melhores aspirações e os mais acalentados sonhos de adulto.

Cada um (e todos) se aproximava, olhava o “conteúdo” da caixa vazia, se distanciava, levando consigo as impressões, subjetivas e insondáveis.

Quantos naquele momento apenas olharam o espaço vazio ou quantos enxergaram o “conteúdo” da caixa?

Não sei responder.

Coloco no fundo da caixa um par de dezenas de bolas de sopro coloridas – a caixa já não estava fisicamente vazia.

Cada um (e todos) selecionava da caixa a bola de sopro vazia que mais despertava a sua atenção.

Qual a motivação para esta escolha?

A cor da bola?

A posição da bola no fundo da caixa anteriormente vazia?

Esta é mais uma pergunta que também não sei responder.

Num primeiro comando imperativo, todos enchem as bolas, anteriormente escolhidas por motivos que somente cada um ou o tempo poderiam explicar.

Num segundo comando, todos tentam encher a caixa com as bolas de sopro, agora plenas do ar soprado dos pulmões eufóricos de cada um (e de todos) os alunos-professores.

A cena é curiosamente inquietante:

Bolas coloridas aprisionadas na caixa.

Bolas coloridas que fogem da caixa.

Bolas coloridas que explodem.

Bolas coloridas que flutuam no ar.

Bolas coloridas que se espalham pelo espaço da sala de aula.

Finalmente, num último comando imperativo, sugiro uma reflexão individual sobre a relação analógica entre a caixa, as bolas de sopro e do cotidiano pedagógico, notadamente em sala de aula.

Os olhares curiosos, de receio, de inquietude ou de contentamento se enchem de súbita emoção, transbordando as metáforas nascidas dos espaços insondáveis da alma:

“As bolas são os nossos alunos. Enchemos todos de ar (conteúdos), como se cada um (e todos) fosse capaz de receber a mesma quantidade”;

“Tentamos enfiar todas as bolas (alunos) cheias (umas mais e outras menos) na mesma caixa (sala de aula), sem levar em consideração as diferenças individuais”;

“O conhecimento que compartilhamos (enchendo as bolas), podem ser tão importantes que se expandem para além da caixa (sala de aula), por isso algumas dessas bolas não cabem na sala”;

“As bolas coloridas (alunos) representam a diversidade da turma, com relação a etnia, a cor, a orientação sexual, a posição econômica e social, etc. Por vezes, não nos damos conta dessas singularidades e diferenças, e tentamos enfiar todas as bolas na caixa, impositivamente”;

“O professor não considera as habilidades e as competências subjetivas. Força a que todas as bolas (alunos) recebam a mesma quantidade de ar (conteúdos), favorecendo, inclusive, a que algumas bolas explodam, por não suportarem a pressão das paredes da caixa”.

A cada relato metafórico, minha alma inflava de contentamento. Afinal, apesar da caixa vazia, todos enxergaram o “conteúdo”.

A caixa e as bolas de sopro coloridas, foram elos que uniram o imaginário subjetivo à realidade da ação docente dos alunos-professores.

A caixa e as bolas de sopro coloridas, deixaram à mostra as inquietudes dos alunos-professores.

A caixa e as bolas de sopro coloridas, dissecaram as emoções, expondo tecidos fragmentados das mesmas inquietudes.

E você, estimado leitor, o que pensa das caixas e das bolas coloridas?

E foi assim que ousei fazer diferente, mais uma vez. Fazer diferente como outras tantas vezes que o fiz nas trilhas da educação… e da própria vida.

Num certo tempo, numa certa universidade, numa certa sala de aula, ousei falar de uma caixa vazia e de bolas de sopro, multicoloridas.

Dedico esta crônica aos alunos-professores da turma pioneira da Especialização em Metodologia do Ensino Superior da FACISA/FCM que me deram a oportunidade de saborear o prazer da sala de aula, mais uma vez.

(*) Professor

FONTE: Da Redação

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