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Campina Grande - PB

Coluna de Ailton Elisiário: Moacir Germano

22/11/2016

moacir-germano

Por Ailton Elisiário (*)

Neste ano de 2016 o Destino foi muito severo para com a nossa Academia. Quatro confrades assumiram a imortalidade definitivamente: a jornalista Molina Ribeiro, o poeta José Laurentino, o jurista José Tavares e agora o poeta Moacir Germano (foto). No dia 15 de novembro Moacir Germano, segundo presidente da Academia de Letras de Campina Grande, sucessor do jornalista Nilo Tavares na Cadeira 25, que tem por patrono o compositor Rosil Cavalcanti, cerrou os olhos para este mundo.

Moacir era natural de Itatuba, nascido em 21.05.1950, vindo para Campina Grande com 11 anos de idade, viajando em lombo de burro. Ao chegar em Ingá, tendo a tropa parado no rancho de Dona Pepediga para dar descanso aos animais, seu pai notando que seus joelhos sangravam indagou-lhe o que havia ocorrido. Ferido pelo roçar dos caçoás, ele respondeu mentindo que não havia sentido aquilo, pois sofrera calado com medo de que seu pai o fizesse retornar e seu sonho de vir a Campina não se realizasse.

E foi aqui em Campina onde ele viveu, vindo a ocupar espaço reconhecido no mundo da literatura e da poesia. Já estudante do Colégio Estadual da Prata, começou a ensaiar os seus primeiros escritos, que assumiam as mais diversas formas: poemas, sonetos, crônicas, pequenos contos, peças teatrais. O fundador de nossa Academia, Amaury Vasconcelos, já vaticinara que Moacir um dia estaria nela ocupando uma cadeira, fato que veio a acontecer quando tomou posse em 8 de abril de 2000, sendo recepcionado pelo próprio Amaury e, indo mais além, o sucedendo na presidência da Academia no período 2004 a 2007.

Moacir publicou várias obras, desde as peças encenadas “Quando as máscaras caem” (1970) e “Quando as mulheres traem” (1973), passando pelos contos a exemplo de “Instantes” (1978) e “O grão de areia”, dedicado aos seus filhos quando eram crianças, trafegando pela crônica em “…E o resto é foquilori” para entregar-se à poesia com imenso repositório. “Meu tempo – meu mundo” (1979), “Poemas” (1983), “Orações de um leigo” (1984), “Os meus sonetos de amor” e “Retrato falado” (2000), dentre tantos e tantos outros poemas publicados em periódicos e revistas especializadas fazem a obra poética de Moacir Germano Brasil.

Desenvolveu trabalhos em conjunto com o confrade Antonio Soares, colaborando com este nas edições dos Cadernos Literários do Instituto Cultural Português, tendo criado o Núcleo Cultural Português de Campina Grande, participado da União Brasileira de Escritores – UBE e da Academia dos Poetas Brasileiros – POEBRAS e premiado na I Amostra de Literatura Econômica da Paraíba e no III Concurso Raimundo Correa de Poesia no Rio de Janeiro. Teve ainda seus poemas incluídos no programa “Leitura Psicanalítica de Poemas” do Núcleo de Estudos Freudianos de Campina Grande. Foi colaborador do Jornal da Paraíba no suplemento JP Literário.

Moacir Germano foi um poeta inquieto, preocupado com o sofrimento humano. Sua poesia intimista denota uma peregrinação interior, plena de agonia, mas sem perder a esperança. É Moacir que agora fala por dois sonetos: um em que exprime sua angústia e outro em que descansa em sua mulher amada.

Diz ele no soneto Por que?: São perguntas que eu faço à minha mente/ e não consigo a mim mesmo responder;/ perguntas que me ferem cruelmente/ transformando em tortura o meu viver./ – Por que a morte nos vem tão de repente/ sem estarmos preparados pra morrer?/ Por que se nasce frágil e inocente?/ E por que tanta dor e padecer?/ – Por que o mundo é cruel e violento?/ Por que a tristeza, a dor, o sofrimento?/ Por que é que a minha angústia não se acalma?/ – Quanto mais me pergunto me torturo./ Mas espero respostas no futuro/ para os porquês que vivem na minh’alma.

E no Soneto da Partida: No dia, meu amor, em que eu partir/ não quero ver o pranto te chegar/ pois todo o caminho que eu seguir/ hei de sempre o teu vulto relembrar./ – Quando o dia chegar (pois há de vir)/ quero ver estampada em teu olhar/ coragem pra vencer dentre o porvir/ a saudade, que certo ele trará./ – Pois que quando eu voltar, pra ti, um dia/ me recebas com júbilo e alegria/ num gesto carinhoso a me abraçar./ – Que eu trarei, para ti, da minha ausência/ (não as horas amargas da existência/ mas) toda a minha vida pra te amar.

Moacir gostava de temas esotéricos e escreveu “A equação do terceiro milênio”, um texto escatológico concernente às profecias contidas na Bíblia, uma no Livro de Daniel (Dn 7, 25) e outra no Livro do Apocalipse (Ap 12, 14). O texto trata da segunda vinda de Jesus Cristo, que será marcada pela última revelação do Filho de Deus com a chegada do quarto milênio. Segundo Moacir será o advento do Juízo Final para todos os vivos ou mortos ressurretos e, tendo agora o nosso confrade passado pelo juízo particular, está à espera da renovação de todas as coisas (Ap 21, 5). Descanse em paz, confrade Moacir.

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(*) Professor, membro da ALCG

FONTE: Da Redação

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